
Obra do cineasta reflete inquietação com os rumos políticos e faz mergulho na alma do homem
contemporâneo
Opositor da ditadura salazarista, mesmo cultuado em seu país, ainda gera polêmica com suas
obras mais radicais.
Nos últimos dois anos, o cineasta português Manoel de Oliveira percorreu o mundo para receber
homenagens em festivais de cinema, centros culturais e universidades.
Por onde passa, do alto dos seus 100 anos, espanta e fascina todos com sua faceirice e lucidez.
Não há de ser diferente em Belo Horizonte, onde o cineasta recebe nesta quinta-feira
( 26/11/09) o título de doutor honoris causa pela UFMG e participa do ciclo de conferências
Sentimentos do mundo.
Manoel de Oliveira goza de uma popularidade singular. Pelo fato de ter chegado a tal idade em
plena atividade intelectual, nunca se discutiu tanto sobre a longevidade do diretor e sua
capacidade – física, mental e financeira – de encadear um filme no outro, e isso durante os
últimos 20 anos.
No entanto, Oliveira é aquele tipo de artista do qual muito se ouve falar, “o único diretor vivo a
ter começado a fazer filmes durante o cinema mudo”, segundo um clichê disseminado nos meios
cinematográficos, mas do qual pouco se conhecem as obras, mesmo entre os cinéfilos e
acadêmicos.
Todos os portugueses conhecem a figura do diretor e seu centenário é assunto em todas as rodas
de conversas em Portugal.
Manoel e sua família tornaram-se até garotos-propaganda de uma marca de laticínios
portuguesa, que aposta na forma física dos Oliveira como atrativo para anunciar os benefícios dos seus produtos.
Mas, ironicamente, seu filme mais popular no país é uma obra de 1942, Aniki-Bobo, fábula
infantil sobre molecagens e inocência, filmado na cidade do Porto, onde o diretor nasceu.
Desde que se tornou a mais importante figura do cinema em língua portuguesa, Oliveira tem
sido alvo de ataques e de polêmicas em seu próprio país.Isso se deve, sobretudo, ao sistema de
produção e de exibição em Portugal, país que produz uma média de 10 longas e 10 curtas
anualmente. Todos esses filmes são bancados quase que exclusivamente por verbas públicas por
meio do sistema de financiamento do Instituto de Cinema e Audiovisual (ICA). Ora, como
Manoel dirige um filme por ano – quando não dois –, muitas vezes é acusado injustamente pelos
seus colegas portugueses de monopolizar grande parte da verba anual. Alia-se a isso o fato de os
filmes do diretor não terem grande apelo junto ao público, o que acaba por criar obras pouco
vistas e, por isso mesmo, vítimas de preconceito e incompreensão.
OLHAR INQUIETO
Oliveira foi até vítima de um “crime de lesa-cultura” durante o lançamento de um dos seus
filmes, a belíssima crônica histórica NON ou a vã glória de mandar (1990).
Uma reportagem do jornal televisivo mais visto em cadeia nacional começou com uma alfinetada
do apresentador perguntando, em tom irônico, quem iria assistir a um filme que “começa com
um plano de mais de 10 minutos onde a camera gira em torno de uma árvore”. O plano em
questão é um dos mais enigmáticos e intrigantes da carreira de Oliveira e pode ser visto como
um resumo das posturas do diretor com relação ao lugar do espectador perante seus filmes – a
persistência do olhar, o enigma como um dos temas de sua predileção.
Por outro lado, a obra de Manoel de Oliveira é considerada e defendida por certos segmentos da
sociedade portuguesa como patrimônio nacional, por meio do ativismo de alguns órgãos públicos
e privados como a Cinemateca Portuguesa, a Fundação Calouste Gulbenkian (que chegou a ser o
único financiador de alguns filmes do diretor) e da Fundação Serralves, do Porto, museu
dedicado à arte contemporânea, que organizou uma exposição ano passado para comemorar o
centenário do diretor.
Outro diretor português não menos polêmico, João César Monteiro, chegou a afirmar que
“Portugal possui um cineasta grande demais para o seu tamanho”, referindo-se a Oliveira. É bem
verdade que, se não fosse a ação de alguns festivais de cinema estrangeiros (Cannes e,
sobretudo, Veneza), de um produtor português baseado em Paris (Paulo Branco) e de condições
de financiamentos externos (da França, da Espanha e da Itália), o cinema de Oliveira não teria
alcançado a projeção internacional que tanto merece.
SENTIMENTOS DO MUNDO
Com o cineasta Manoel de Oliveira, amanhã, às 17h, no auditório da reitoria (câmpus Pampulha).
Mesa-redonda com a participação do cineasta, do professor César Guimarães (UFMG), de
Mateus Araújo e do professor Aniello Avella (Universidade de Roma Tor Vergata).
Em seguida, o diretor português receberá o título de doutor honoris causa concedido pela UFMG
e fará a conferência Reflexões sobre a condição humana.
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