terça-feira, 1 de dezembro de 2009

AIDS : FALTA DE REMÉDIOS GERA TRAGÉDIA INFANTIL NA ÁFRICA

Nairóbi - Metade das crianças soropositivas morre antes de completar dois anos nos países pobres devido à falta de remédios anti-retrovirais especiais para elas e de exames acessíveis para detectar a doença nos recém-nascidos, denunciou hoje a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF).
"O tratamento dos adultos é fácil, pois há uma dose fixa com uma combinação de três anti-retrovirais tomados duas vezes ao dia.
Infelizmente, não temos uma dose para crianças, sendo preciso tomar apenas parte do comprimido, com o risco de não ser ingerida a quantidade correta", explicou Wangari Realmary, enfermeira da MSF.
"Amasso os comprimidos, mas às vezes cai uma parte no chão e não sei se minha filha recebe a quantidade de remédio que precisa", contou Catherine Atieno, de 31 anos, soropositiva e mãe de Joan, de cinco anos, que também tem aids.
A overdose de anti-retroviral pode ser tóxica para uma criança, enquanto uma dose menor que a necessária pode fazer com que o vírus desenvolva resistência ao remédio.
A três dias do Dia Mundial de Luta contra a Aids, a MSF exigiu à indústria farmacêutica um maior compromisso para desenvolver tratamentos pediátricos.
A eficácia dos laboratórios está comprovada, afirmou a organização humanitária, mas quase não há doses de anti-retrovirais para crianças. Além disso, muitos são xaropes que devem ser colocados em refrigeração, o que é quase impossível em lugares como Kibera, o maior bairro de favelas da capital queniana e do leste da África.
"Em países desenvolvidos, há poucas crianças com aids porque são aplicados tratamentos para prevenir o contágio do feto pela mãe", explicou Rachel Thomas, coordenadora médica da clínica que a MSF tem em Kibera.
Nove em cada 10 crianças infectadas com o vírus da imunodeficiência humana (HIV) vivem na África. Do total, 95% delas adquiriram a doença ainda na barriga da mãe, no parto ou durante a amamentação. Conseguir tratá-las a tempo "é uma dura batalha", disse a MSF.
"O teste usado no mundo desenvolvido para detectar se um recém-nascido é soropositivo é muito caro, complicado e não se adapta para o uso em clínicas com recursos muito limitados", afirmou Realmary.
Em países como o Quênia, o único teste economicamente acessível só pode ser feito aos 18 meses de idade do bebê. Antes, é impossível saber se os anticorpos encontrados no sangue pertencem à criança ou à mãe.
Caso sejam soropositivas, as crianças têm dificuldades de obter remédios anti-retrovirais se não pesarem pelo menos 25 quilos. Por tudo isso, acrescentou Rachel Thomas, "a metade dos bebês com HIV não chegará aos dois anos".
Esta situação continuará ocorrendo enquanto não houver testes que permitam detectar o vírus antecipadamente e determinar a dose de tratamento para as crianças com aids, doença que matou 300 mil menores na África em 2004.
No Quênia, há 120 mil crianças infectadas com o HIV, e das 18 mil que precisam de tratamento com anti-retrovirais, apenas 1.300 o estão recebendo.
Entre elas, está a pequena Faith Wangari, de 10 anos, que explica sorridente que nunca se esquece de tomar seu remédio.
"Tomo de manhã e de noite. E sei que terei que tomar por toda minha vida", disse a menina sorridente. Mas sua mãe, Esther Nchororo, de 39 anos e também soropositiva, confessou seus temores.
"O que acontecerá se eu morrer, quem cuidará dela? Se estes médicos vão embora, quem nos dará os remédios? Nairóbi é muito cara e eu gostaria de viver no campo, mas não sei se há remédios lá", disse.

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