segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

EM MINAS GERAIS, ANALISTAS APOSTAM EM AÉCIO NO SENADO

Em Minas Gerais, a aposta generalizada é a de que Aécio Neves será candidato a senador no próximo ano. Uma vez eleito, procuraria ganhar projeção nacional propondo um novo alinhamento entre forças partidárias para a próxima década. E nesse sentido, Aécio procuraria manter independência em relação a José Serra.
Com visões divergentes sobre o processo eleitoral em Minas Gerais, o cientista político especializado em Poder Legislativo e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Carlos Ranulfo de Melo; e o sociólogo e diretor do Instituto Cultiva, Organização Não-Governamental (ONG) que presta consultoria na área de educação, Rudá Ricci, convergem sobre a aposta em relação ao futuro do governador: Aécio tende a intensificar a emulação com a figura do avô, o falecido presidente Tancredo Neves. E dificilmente sairá do PSDB.
Também são céticos, por motivos diferentes, sobre o potencial de Serra em obter um resultado expressivo em Minas Gerais. Ambos acreditam que parte do eleitorado disposto a votar em Aécio migrará para seus adversários.
Serra começa sua trajetória eleitoral em Minas exatamente do lugar onde o candidato tucano em 2006, o também paulista Geraldo Alckmin, parou. Três dias antes de Aécio retirar sua candidatura, uma pesquisa no jornal “O Tempo” mostrou Serra com 40% em Minas, seguido por Dilma Rousseff (PT) com 15,7%; Ciro Gomes (PSB) com 10,8% e Marina Silva (PV) com 4%. No primeiro turno de 2006, Alckmin também teve 40% no primeiro turno em Minas, enquanto Lula alcançou 50,1%. Já foi um avanço em relação a 2002, quando Serra obteve 22,8% em Minas, frente a 53% de Lula.
Neste fim de semana, o jornal “Folha de S. Paulo” publicou pesquisa do Datafolha mostrando a diminuição da diferença entre Serra e Dilma. O tucano consegue 37% e a petista, 23%. Ciro alcança 13% e Marina, 11%. A pesquisa foi feita após a veiculação da propaganda do PT na televisão, que divulgou Dilma. Já a do PSDB foi dividida entre Serra e Aécio.
Entre os aliados de Aécio Neves, ainda persiste a dúvida sobre o caráter definitivo de sua decisão. “O jogo não acabou. Vai continuar. Vamos aguardar os desdobramentos. Corre-se o risco de chegarmos em março e, conforme estiverem as pesquisas, novas desistências ocorrerem no PSDB”, afirmou o prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda (PSB), um dos interlocutores do governador mineiro na sexta-feira.
No seu primeiro fim de semana como ex-candidato presidencial, Aécio procurou fazer uma viagem de caráter simbólico: esteve no sábado em Setubinha, município com o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Estado. No mesmo dia, foi a Bonito de Minas, no Vale do Jequitinhonha, que é o quarto menor IDH mineiro. Em ambas, estava acompanhado do virtual candidato tucano a governador, o vice-governador Antonio Anastasia. Em entrevista, Aécio afirmou que “sequer cogita” ser vice de Serra. O grau de empenho do governador na eleição em Minas é outra discordância entre os dois cientistas sociais mineiros ouvidos pelo Valor.
“Governador depende da derrota de Serra para viabilizar seu projeto nacional”
Eugenio Savio/ValorRicci: “Governador tentará ser senador para forjar uma nova aliança que rompa com a polarização entre PT e PSDB”


A seguir, a entrevista com o diretor do Instituto Cultiva, Rudá Ricci:


Valor: A candidatura de José Serra à Presidência sofrerá um abalo com a desistência de Aécio Neves em concorrer?

Rudá Ricci: Sem dúvida, em razão da forma como Aécio preparou sua saída. Ele a fez causando um profundo desgaste na imagem de Serra, ao menos em Minas Gerais. Procurou-se transmitir a sensação de que Serra é um homem que empurrou Aécio para fora da disputa de forma maquiavélica, sem tomar uma decisão. O Aécio poderia esperar até janeiro, conforme as lideranças tucanas pediram, mas preferiu fazer na semana passada, na sequência das definições locais e do fortalecimento da candidatura de Ciro Gomes no PSB.

Valor: Como isso se traduzirá em termos eleitorais em Minas? Até que ponto o sentimento de frustração regional pesa para o eleitor?

Ricci :Em Minas Gerais pesa muito. Ao contrário de São Paulo e Rio, aqui não é um Estado fundamentalmente de migrantes. Serra poderá ser visto como mais um paulista que veio tirar o espaço dos mineiros.

Valor: Mas uma recente pesquisa mostrou Serra com 40% dos votos em Minas. Como isso se dissiparia de uma outra para outra?

Ricci : Por mais que Aécio tenha negado, sempre se partia da perspectiva de que poderia haver uma chapa Serra/Aécio para a Presidência da República. Na medida em que ficar claro que isso não vai ocorrer, Serra tende a cair aqui e Dilma (Rousseff, ministra da Casa Civil) a subir. Ou Ciro (Gomes, deputado federal do PSB), se tiver o apoio de Aécio nos bastidores.

Valor: Por que Aécio não vai sair de vice de Serra?

Ricci : Aécio já anunciou a possibilidade de se colocar como uma espécie de conciliador nacional. Ele tentará ser senador para forjar uma nova aliança, diferente do alinhamento partidário atual, com o PT de um lado e o PSDB do outro. Ele não depende da vitória do candidato a governador dele aqui para isso e duvido que se empenhe muito para eleger (Antonio) Anastasia (vice governador). Mas ele depende da derrota de Serra para tal. Com Serra na Presidência, Aécio não tem como propor uma nova aliança.

Valor: Por que então ele não procurou fazer isso saindo do PSDB ao perceber que não tinha como concorrer com Serra?

Ricci: Porque ele tinha que recompor suas bases no interior de Minas. Diferente do que a vitória dele em Belo Horizonte pode indicar, Aécio fragilizou-se no Estado como um todo. Precisava refazer sua liderança, abalada em 2008. Além disso, o PSDB é parte essencial do projeto de Aécio. O problema dele são os tucanos paulistas.

Valor: Ou seja, na visão do senhor, se o Serra tornar-se presidente, nascerá aqui em Minas um foco de oposição..

Ricci: Na verdade, Aécio hoje talvez seja um obstáculo para Serra chegar à Presidência. Como Ciro Gomes é um obstáculo para a Dilma nesse mesmo sentido.

Valor: E porque a vitória de Anastasia não seria importante para o projeto conciliador de Aécio?

Ricci: Evidentemente que a vitória de Anastasia fortaleceria Aécio, mas ele joga com mais de um cenário. Ele sabe que seu projeto não estará comprometido caso o PT ganhe em Minas, se o candidato petista for Fernando Pimentel, e o ex-prefeito ganhou as eleições internas do PT uma semana antes de Aécio retirar a candidatura. Ele sabe que o projeto também sobrevive com Hélio Costa, e o ministro das Comunicações ganhou as eleições internas do PMDB dois dias antes da retirada. Observe que trata-se de uma sequência. Houve um método. Mesmo se o próximo governador de São Paulo for (Geraldo) Alckmin, o projeto da conciliação nacional sobrevive. Ele só não sobrevive com Serra na Presidência.

Valor: Um dos propósitos de Aécio é tornar-se uma figura nacional, como era o avô Tancredo Neves pouco antes de eleger-se presidente no Colégio Eleitoral em 1985. O senhor acha que Aécio conseguiu?

Ricci: Tancredo cresceu politicamente e tornou-se o que se tornou em seus dois últimos anos de vida. Mas antes disso ele era uma figura sem tanto impacto nacional, sem tanta presença no imaginário como a que Ulysses Guimarães tinha dentro do PMDB. Ulysses era paulista, controlava o partido e parecia vocacionado para chegar à Presidência. Tancredo era uma figura do conchavo político, estava em Minas Gerais, fora do palco. Há semelhanças entre a estaturas dos personagens do passado e dos de hoje. (C.F.)

“Desistência dificulta candidatura de Ciro à Presidência “
João Castilho/Folha ImagemCarlos Ranulfo Melo: “A candidatura de Aécio ou sua presença na chapa de Serra prejudicaria Dilma no Estado”


A seguir, a entrevista com o professor da Universidade Federal de Minas Gerais, Carlos Ranulfo ao Valor:


Valor: A candidatura de José Serra à presidência sofrerá um abalo com a desistência de Aécio Neves em concorrer?

Carlos Ranulfo Melo: Fará muita diferença em Minas Gerais. A presença de Aécio Neves como candidato presidencial ou como vice na chapa de José Serra tornaria muito difícil o trabalho por Dilma Rousseff no Estado.

Valor: Até que ponto o sentimento de frustração regional pesa para o eleitor?

Melo: Não penso que haja, fora do âmbito da elite mineira, repercussão para o discurso regional. Não foi a presença de José Alencar na chapa que garantiu a Lula vitórias no Estado em 2002 e 2006. Acho que o ponto central para se pensar em efeito eleitoral é o peso do governador em si. Aécio é o governador mais bem avaliado que Minas Gerais já teve, o único a ser eleito duas vezes, com ou sem reeleição. Ele tem popularidade por si e a ausência dele na chapa é um peso.

Valor: Um dos propósitos de Aécio é tornar-se uma figura nacional, como era o avô Tancredo Neves pouco antes de eleger-se presidente no Colégio Eleitoral em 1985. O senhor acha que Aécio conseguiu?

Melo: São realidades muito distantes no tempo para se permitir comparação, mas Aécio tem uma imagem de realizador administrativo que Tancredo não teve. Mas o peso que Tancredo tinha nacionalmente era indiscutivelmente maior antes dele chegar à Presidência da República do que é o de Aécio hoje. Já era maior antes de Tancredo ser governador. Aécio dentro de Minas Gerais possui uma densidade eleitoral acima da do avô, mas em termos de Brasil não tem a mesma densidade política.

Valor: No processo de disputa interna do PSDB Aécio procurou se projetar como um político capaz de produzir no País um novo alinhamento partidário, ampliando a aliança que marcou as últimas quatro eleições. O senhor acha que ele poderia conseguir isso?

Melo: Ele poderia sim, mais que Serra, fazer um realinhamento, mas em termos limitados. O grande pólo não mudaria. Por muito tempo vamos continuar tendo uma disputa liderada pelo PT de um lado e o PSDB do outro, com o PMDB oscilando entre os dois. É um grande ponto de estabilidade em um sistema partidário cronicamente instável. Mas no Senado Aécio certamente irá procurar relançar-se como conciliador. Com alcance limitado, contudo, sobretudo em termos eleitorais.

Valor: Como ele poderá ter papel protagonista em uma casa historicamente dominada pelo PMDB?

Melo: Exatamente por ser uma figura que demarca distância em relação ao
padrão dominante no PSDB. Ele transita bem dentro do PMDB e ao mesmo tempo mantém espaço de convivência no PSDB. Se ele tivesse alguma intenção de sair do PSDB, porque não o fez no instante em que percebeu que não seria candidato este ano? E este instante com certeza ocorreu há algum tempo.

Valor: Quais as conseqüências imediatas que a retirada de Aécio provoca no quadro eleitoral?

Melo: A óbvia é tornar inevitável a candidatura Serra. Em Minas, Aécio diminui o espaço para uma aliança com o PMDB, porque ele demonstra que colocará muito empenho para a eleição de Anastasia como seu sucessor e porque, como candidato ao Senado, retira uma vaga do Legislativo no pacote da negociação. A disputa para o Senado em Minas fica muito difícil. É razoável pensar em um cenário com três candidaturas ao governo: Hélio Costa, Anastasia e alguém do PT.

Valor: Isto não prejudica muito a candidatura de Dilma Rousseff?

Melo: Pelo contrário, acho que auxilia. O palanque duplo favorece a realização de segundo turno em Minas, o que é bom se pensarmos que deve haver segundo turno na eleição presidencial.

Valor: O senhor acredita em eleição presidencial em dois turnos?

Melo: Sim, Dilma tende a crescer nas pesquisas em função das boas perspectivas econômicas para 2010 e Marina Silva deve ter uma votação suficiente para viabilizar o segundo turno, como foi com Heloisa Helena em 2006.

Valor: E o Ciro Gomes?
Melo: Não acredito na candidatura de Ciro. Acho que a retirada de Aécio na verdade a torna mais difícil, porque ele especulava com a hipótese de um eixo com Minas que agora não vai mais existir. Ciro não tem sequer o bloquinho que tentou construir. Está sozinho, em um partido no qual não tem o controle.(C.F.)



2010: Mandato de senador lhe daria projeção para tentar um novo alinhamento de forças partidárias
César Felício, de Belo Horizonte – VALOR
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