Na mesa falta o pai. A mãe às vezes vem, às vezes não vem. E a criança, na solidão imposta pelo mundo moderno, prossegue sua jornada agonística. Em outros tempos, a mesa era lugar para puxar prosa, resolver conflitos, deixar as palavras caírem, e, com elas, traçar itinerários, viagens - para dentro e para fora. Porém, agora, as mesas servem mais para se instalarem computadores. As refeições, essas podem ser feitas rapidamente, no self service da esquina, ou no sofá em frente da TV. Mas devemos voltar ao tempo das mesas, mesmo que modestas, mas intensas de conversas e afeto. Naquela época, a comida era desculpa para reverenciar a vida. Apetite, todos tinham, e muito! Não se usava fluoxetina. Tudo parecia mais manso, sereno, e a bebida servia ao congraçamento. Era lá, “em torno da mesa larga, largavam as tristes dietas, esqueciam seus fricotes, e tudo era farra honesta acabando em confidência”. A mesa de Drummond, em seus versos, homenageia a vida que agora se ressente da falta de gente para comer, juntos, a confiança e a crença no mundo.
Na família de outrora pai era coisa séria, e os filhos o respeitavam, era só olhar. A mãe cuidava da casa, zelava pela felicidade, pela esperança que nunca murchava. Hoje, o pai esquece que tem filho, prefere o futebol, o happy hour, a namorada nova. A mãe moderna, mulher sem tempo! Com coisas mais interessantes que de filho se ocupar. Trabalho, academias, passeios. A vida moderna exige, senão ela fica de fora, fora de moda. Mulher hoje é correr. Todo muito corre e se esquece de perguntar onde fica essa tal felicidade que nunca aparece. A felicidade sempre escondeu sua graça. Impossível encontrá-la sem nos dedicar a construí-la!
Além de mesa, na família falta amizade. O filho só procura o pai na hora que o dinheiro acaba. Sem amor, muito dinheiro é pouco. Sem paciência, pouco tempo é muito. Apressados, todos começam a brigar. Sem harmonia, impossível gostar. Mas o momento exige, todos devem gozar! Os meninos ainda crianças começam a fumar. Desde cigarro até coisa pior. Busca-se na droga ajuda para a dura vida suportar. A violência agora nos espreita em cada esquina. A menina de boneca não quer mais brincar. Agora a moda é de mulher sonhar. Quer sapatos de salto e vestidos de mocinha usar. Logo engravida e tudo finge se normalizar. Assim a família vai consumindo prazeres, que é difícil de acreditar. Mais que necessário, é hora de repensar, pois educar filhos é coisa séria, senão, é só sofrimento que vai chegar.
O filho deve servir para trazer alegria. Filho é gente, não pode ser confundido com objeto de consumo. Objetos servem a necessidades, e filho, se não é coisa, não serve para usar, só para amar. Filho custa tempo, dinheiro e fracassos. Faz parte da aventura humana de procriar. A família que se exaspera com o desempenho do filho muitas vezes o atrapalha. A criança precisa descobrir como quer viver. Deve ensaiar, errar, cair. Acertar exige andar para frente e andar para trás. Não adianta o pai cobrar! Sair correndo, não enxerga o caminho, pode até chegar, mas sem saber aonde isso tudo vai dar!
A família de hoje vive a crise de autoridade, de responsabilidade. Ninguém quer responder pelos seus atos. A mentira é muito usada, e poucos se candidatam ao sofrimento necessário. Na minha época, puchão de orelha impunha respeito. Criança não gostava, e o pai pouco usava, quase não precisava! Veio o positivismo, depois o neoliberalismo, e agora com a tecnociência, a autoridade mudou de lugar. Mais vale as máquinas, que sempre trazem novidades. Educar virou sinônimo de dinheiro, toda a gente deve estudar, para rico logo ficar. E os meninos crescem sem ídolos admirar. O mito moderno é o que aparece na televisão, sem erudição. Que decepção! Ela é cheia de frustração, essa vida de desmoralização.
Educar filho é algo sobre o que psicólogo, psicanalista, poeta, todos já pensaram e escreveram quão difícil é. Freud comparou a dificuldade de educar com a de governar e analisar, tarefas para não terminar. Educar para quê? Isso é pergunta de poeta, que aos pais que não gostam de questionar, só serve para atrapalhar. “Para quem acredita em Deus, não há problema; para quem acredita em dinheiro, não há problema. Mas eu não acredito nem em Deus nem em dinheiro. Logo, não posso educar meu filho para a eternidade ou para a segurança material. Se acreditasse que a felicidade da vida fosse o prazer, ou a arte, ou o poder, ou a obediência, ou o sacrifício, poderia educar meu filho. Faltando-me essas convicções, me perco”. Para Paulo Mendes Campos, não existe educação, mas uma atmosfera educacional. Contudo, o mundo de agora conspira contra o pai, a lei e a confiança. Vivemos descrentes, desconfiados. Desconfiamos da escola, da medicina, da política e da polícia. Antigamente, todas essas instituições visavam à soberania da vida. Quando a vida valia muito!
Parece esquisito, mas é difícil escrever sobre educação de filhos sem sentir saudades do tempo em que o jovem buscava nos livros e nos discos sentido para viver. Eu mesma gostava de ser jovem. Acho que a maioria gostava. Hoje, parece que ser jovem é ruim. Vejo-os tristes, vestidos de preto, drogados e entediados. Gostam de se espetar com ferrinhos no nariz e nas orelhas. Esquisitice! E gostam de exibir desenhos pelo corpo. A gente desenhava no papel e pintava em telas. Quem não viveu aquela época precisa saber: ser jovem era coisa séria, divertia-se com arte e inteligência. A maioria não pensava em ostentar bens, mas conhecimentos. O dinheiro era pouco, mas não faltavam crença e coragem. Os jovens lutavam e morriam pela liberdade, que hoje parece ter chegado de graça. As amizades eram compridas, sem superficialidade e oportunismo, davam para muita coisa.
Volto no tempo, ao ano de 1979, curso de história na faculdade de filosofia, ciências e letras da Fafich/ UFMG. O antigo prédio da Rua Carangola abrigava corações e mentes ávidas por idéias revolucionárias, que chegavam dando sentido e coragem para a luta contra as arbitrariedades impostas pela ditadura militar, durante os terríveis “anos de chumbo”. No ambiente de efervescência política, ser jovem era indignar-se com a injustiça e a desigualdade. Liberdade e progresso social, palavras de ordem na boca de uma juventude revoltada, aguerrida e combativa. O filme Zuzu Angel revela com maestria o sentimento e a coragem dos jovens dessa época, tempo de luta e orgulho de ser jovem. Como éramos românticos! Ao som de Joan Baez, sonhávamos e acreditávamos nas músicas e nos livros! E como líamos! Marcuse, Sartre, Camus, Althusser, Foucault. Os franceses sempre nos seduziam. O Collège de France, um paradigma, um ideal de cultura e estudo a ser perseguido.
Caminhando e cavando, descobríamos mundos. Dos intelectuais brasileiros, éramos fiéis leitores de Marilena Chauí, Florestan Fernandes, Maria Rita Kehl, Hélio Pellegrino, entre tantos que nos abriam um campo de debate, entusiasmo e perspectivas. Nossos corações pulsavam esperança. A ditadura, uma pedra no caminho, um rochedo que deveríamos transpor, sobrepujar! Almejávamos por uma vida sem proibições e repressões. O amor? Já era livre, faltava a liberdade de expressão. Mesmo sem ela, alimentávamos as utopias encarnadas de uma época que vibrava, pulsava, latejava e sangrava! Assim era que descobríamos autores e saberes dentro da psicanálise, da história, da sociologia e da filosofia. Eis o nosso maior interesse: desvendar saberes e pensamentos. Reverenciávamos as palavras dos poetas, diante delas fazíamos nosso voto de fé. Um dia chegaremos lá! A trajetória seguia, e nos cadernos reuníamos certezas e convicções. Entre tantas, a de que os muros do conhecimento existem não para separar, mas para estimular-nos a ultrapassá-los. Por isso éramos desordeiros, migrávamos da história para a filosofia, letras, psicologia. Primeiro, misturar, para depois separar. Correr outros mundos, outros saberes – eis o que nos encorajavam para a insubordinação do conhecimento. Nada de fidelidades e hermetismos!
O mundo atual resumiu-se. Tudo é objetivo, planejado, enquadrado, focado. Para recuperar o sentido de viver, temos de parar. Voltar o olhar para um outro tempo e nele buscar sabedoria para repensar a realidade atual. Temos informação em excesso, comemos além do que necessitamos, consumimos muito, e desfrutamos pouco! A sublimação se realiza por meio do consumo de objetos: desejamos carros e celulares como se fossem objetos sexuais. Deprimidos, vamos às compras! A felicidade gosta de se esconder, é brinquedo desdobrável, precisa sempre ser remontada. Isso requer tempo, paciência, coisa de que o homem moderno não gosta, pois quer tudo rápido! A ciência avança, mas nunca nos alcança. Vivemos o muito, tudo em demasia, só o amor é pouco. “A ciência, a ciência, a ciência...Ah, como tudo é nulo e vão! A pobreza da inteligência. Ante a riqueza da emoção”. Fernando Pessoa já desconfiava do cientificismo que em nome da humanidade, fragmenta, despedaça. Mais desama que ama. Mais que solidão, tristeza. Modernidade sem rumo!
INEZ LEMOS
[1] Psicanalista. Email: mils@gold.com.br
sábado, 5 de dezembro de 2009
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