DA FILHA DE OLGA BENÁRIO PARA LULA
Exmo. Sr. Presidente da República
Luiz Inácio Lula da Silva.
Na qualidade de filha de Olga Benário Prestes, extraditada pelo Governo
Vargas para a Alemanha nazista, para ser sacrificada numa câmera de
gás, sinto-me no dever de subscrever a carta escrita pelo Sr. Carlos
Lungarzo da Anistia Internacional (em anexo), na certeza de que
seu compromisso com a defesa dos direitos humanos não permitirá que
seja cometido pelo Brasil o crime de entregar Cesare Battisti a um
destino semelhante ao vivido por minha mãe e minha família.
Atenciosamente,
Anita Leocádia Prestes
Carta a que D. Anita Leocádia Prestes faz referência:
São Paulo, 14 de novembro de 2009
Excelentíssimo Senhor Presidente do Supremo Tribunal Federal do Brasil
Dr. Gilmar Ferreira Mendes
Prezado Senhor:
Escrevo a Vossa Excelência na simples condição de alguém que milita em
defesa dos Direitos Humanos desde a adolescência, que passou por
várias seções da Anistia Internacional, foi voluntário do ACNUR e da
Justiça e Paz.
Não sou membro de nenhum partido político ou seita religiosa, não sou
eleitor no Brasil nem em meu país de origem, não recebo dinheiro da
Itália, nem de grupos terroristas.
Conheci Battisti esta semana; antes que recebesse refúgio, nunca tinha
ouvido falar dele nem no grupo a que pertencia. Tampouco tenho
interesse intelectual ou profissional no caso: sou um cientista e não
advogado, jornalista ou político. O que me move a empenhar‐me nesta
causa são o sentido de solidariedade, minha visão ética da vida
e,também, a vergonha que me produz pensar que possa viver sob
instituições nas quais se pratica linchamento.
Embora tenha uma firme ideologia pessoal, repudio igualmente aos
neofascistas italianos que perseguem Battisti e aos pseudo‐esquerdistas
que se enrolam na causa do revanchismo e a “vendetta”.
Acompanhei muitos casos em minha condição de membro de AI, e vi
pessoas liberadas por um STF diferente: vi a liberação de Fernando
Falco, na qual participei ativamente, e a do padre Medina, em cujo apoio
apenas pude redigir algumas cartas. Antes disso, soube da extradição de
Mário Firmenich, que foi correta.
Minha atividade em favor dos DH não foi apenas a de preencher papéis.
Na década de 70 protegi refugiados do Cone Sul, vítimas da Operação
Condor, com grave perigo para mim e minha família.
Na década de 80 participei na resistência contra o Operativo Charlie no
México e na América Central.
Por tudo isso, não tenho nenhum embaraço em assumir que me sinto
plenamente qualificado para exigir justiça para Battisti.
Não estou pedindo clemência. Este é um termo teológico.
O extraditando merece justiça.
Em meus anos de militância conheci dúzias de vítimas da repressão e
posso afirmar que é relativamente fácil, nessas condições, reconhecer a
têmpera de alguém.
Bastou estar uma hora com Cesare Battisti para perceber que ele tem
enorme coragem, o oposto exato de seus inimigos, que se movem nas
sombras, protegidos pelo poder.
Posso me equivocar, mas me parece certo que Battisti não poderá ser
amedrontado, como não foram amedrontados Nicola Sacco, Bartolomeu
Vanzetti, Joe Hill, Ethel Rosenberg, Dreyfus, Olga Benário, e muitos outros.
Não vou dizer a VE que a história nos julgará: a história é longa e talvez
só mude muito tempo depois que se acabe a única vida que temos
certeza que possuímos.
A crença na justiça histórica é apenas uma maneira racional de fantasiar
um desejo mítico de eternidade.
Mas, quero fazer uma observação prática: a realização da vingança de
outros, como simples procuradores, talvez não seja um bom negócio e
não se possa fazer dela um bom proveito.
Muitos dirão que, apesar de que Hitler e Mussolini tiveram má sorte, esse
não foi o caso de Margareth Thatcher nem do ditador Franco, e que boa
parte da Espanha e da Itália ainda apóia o fascismo e seus similares, e
parecem ter muito sucesso.
Mas, será realmente assim? Será que o triunfo de crueldade faz seus
autores felizes?
Todos os anos, milhares de flores chegam ao túmulo de Bobby Sands e
dos outros 9 heróicos garotos que levaram até a morte sua greve de
forme em 1981, e não o fizeram para pedir liberdade, apenas para
manifestar seu desprezo por seus infames opressores.
Seu carrasco, a senhora Thatcher, só recebe os cumprimentos de
subservientes empresários que enriqueceram com a ruína de seu país.
Os que já não podem beneficiar‐se dela, se afastaram. Aliás, se o ódio
compensa, eu gostaria de saber: por que o racismo atravessa a Itália?
Por que os mesmos vândalos que exigem a cabeça de Battisti andam com
tochas ateando fogo em acampamentos de africanos, árabes e ciganos,
matando mulheres e crianças?
Será que pessoas felizes precisam de violência?
Não digo que esses atos deveriam parar por razões morais. Os que os
praticam não tem uma moral humanista: eles não acreditam na
humanidade, mas nos mitos, na raça, na linhagem, nas armas.
Mas, será que os massacres, a punição coletiva, a perseguição e o papel
de inquisidores medievais leva alguma felicidade a suas mentes doentias?
Se não for assim, qual é a vantagem desse ódio?
Não posso evitar pensar no famoso coronel de Carandiru. Ele sentiu‐se
muito feliz quando massacrou 111 pessoas indefesas, mas, será que era
feliz junto a sua namorada, que aplicou com ele a mesma metodologia
criminosa, a única que eles conhecem?
Não estou dizendo a ingenuidade de que “a vida se vinga” ou “o mal
acaba recebendo seu castigo”.
A história mostra que isso não é verdade.
Esta é uma idéia antropomórfica, válida para os que acreditam num
destino personalizado. Há, porém, uma razão mais básica. A crueldade,
a vingança e o revanchismo tornam as pessoas doentes.
Não é o castigo divino; é o “castigo” de nossas próprias células.
Estatísticas feitas nos Estados Unidos, na França, durante a Guerra de
Argélia, e na Nicarágua, depois da libertação, mostram que
torturadores, carrascos, linchadores, têm o maior índice de problemas
em sua vida afetiva.
Na Georgia, por cada 9 famílias de militares com graves quadros de
violência familiar, há apenas 2 famílias civis com os mesmos problemas.
Em Alabama, por cada mulher de civil que apanha de seu marido,
há 4,7 esposas de policiais que padecem desse problema.
Contrariamente às opiniões cheias de ódio, de sede de sangue e de
“vendettas”, há muitas pessoas que valorizam Battisti, sua integridade,
resistência e inteligência, sua qualidade de escritor, sua capacidade de
lutar durante 30 anos e estar disposto a morrer, em vez de tornar‐se
delator, “arrependido”, um lacaio da máfia peninsular.
Ele não estará sozinho em sua greve de fome, e não será possível para
nenhum tribunal extraditar para Itália todos os amigos de Battisti.
Excelência, sei que o VE está num nível cognitivo muito superior ao de
outras pessoas que se manifestaram contra Battisti.
Sei reconhecer a inteligência de alguém, mesmo quando nossos valores
sejam opostos.
Ouso dizer que Vossa Excelência apreciou 100% da brilhante
intervenção do Ministro Marco Aurélio, e reconhece, sem dúvida, que
naquela longa argumentação não há uma palavra desnecessária, uma
frase que não seja precisa, uma verdade que não tenha sido
exaustivamente provada.
O Ministro Marco Aurélio fez, como ninguém tinha feito, uma análise
profunda da Sentença 76/88, RG 49/84 da Corte d’Assise de Milano.
Ele enumerou 34 provas de que Battisti foi tratado como autor de crime
político e acusado diretamente de subversivo (evversivo).
Não acredito, mesmo sendo um outsider, que em direito absolutamente
tudo seja assunto de opinião.
Não posso pensar que o VE acredite realmente que esses crimes foram
comuns.
Nunca pensaria isso, porque seria insultar vossa inteligência, e eu nunca
cometeria essa impropriedade.
Também tenho certeza de que o VE sabe que a causa está prescrita.
A prova dada pelo Ministro Marco Aurélio é um verdadeiro teorema, que
só pode nos inspirar pena pelos que pretendem defender o parecer
contrário.
Percebi que VE ouviu às poucas mas precisas ironias do Ministro Marco
Aurélio sobre o cinismo do governo italiano e seus xenófobos e racistas
partidários, ao descrever as 12 maiores injúrias que os mais altos
políticos fizeram da cultura e do povo brasileiro e até de seus
magistrados.
Ele fez isso, olhando “olho no olho” no Embaixador Italiano, que naquele
momento abandonou a empáfia e fechou o rosto.
Sei que VE entendeu que o Ministro Marco Aurélio desmascarou os
interesses políticos e psicológicos (ressentimento, vingança, propaganda,
revanchismo) que nada têm de jurídico e se escondem detrás de um
julgamento feito com todas as violações possíveis aos Direitos Humanos
e ao devido processo. E que ele também ressaltou o idealismo das
gerações que lutaram contra a barbárie na década de 70, sem se
importar que os vândalos usassem farda ou se vestissem à paisana.
Seria impossível duvidar de que VE ouviu a um dos maiores magistrados
da atualidade falar da ditadura do judiciário, algo que conduzirá à
catástrofe não apenas da instituição do refúgio, mas de toda a
democracia.
Tampouco VE ignora muitos fatos que, embora não tenham sido
narrados no dia 12, são de absoluta evidência: Que o governo da Itália se
utiliza da organização DSSA para sequestrar refugiados no exterior, que
o ministro italiano Clemente Mastella disse aos parentes das vítimas
que não cumpriria sua promessa feita ao Brasil de limitar a prisão de
Battisti aos 30 anos, que Battisti morreria na Itália pelas mãos de seus
algozes e, portanto, que a declaração de greve de fome de Battisti é a
evidência de que prefere uma morte digna por sua própria mão.
Em fim, Senhor Presidente: Vossa Excelência sabe que o Ministro Marco
Aurélio está certo, e hoje há milhares de pessoas que sabem disso.
Não o conheço e não posso julgar se os Direitos Humanos e a Justiça são
importantes ou não para Vossa Excelência.
Mas, caso o sejam, VE tem uma excelente oportunidade de cumprir com
esses direitos e honrar a justiça:
Admita o empate e outorgue ao réu o benefício da dúvida!
Atenciosamente
Carlos Alberto Lungarzo
Matrícula de Anistia Internacional (USA) 21525711
Autor: luisnassif - 18/11/2009 - 09:46 Por Aton Fon
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
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