sábado, 5 de dezembro de 2009

CARTA A UM JOVEM INTERNAUTA

Sei que você passa longas horas no computador navegando a bordo de todas as

ferramentas disponíveis.

Não lhe invejo a adolescência. Na sua idade, eu me iniciava na militância

estudantil e injetava utopia na veia. Já tinha lido todo o Monteiro Lobato e me

adentrava pelas obras de Jorge Amado guiado pelos “Capitães de areia”.

A TV não me atraía e, após o jantar, eu me juntava à turma de rua, entregue às


emoções de flertes juvenis ou sentar com meus amigos à mesa de uma lanchonete

para falar de Cinema Novo, bossa nova – porque tudo era novo – ou das obras de

Jean Paul Sartre.

Sei que a internet é uma imensa janela para o mundo e a história, e costumo


parafrasear que o Google é meu pastor, nada me há de faltar...

O que me preocupa em você é a falta de síntese cognitiva. Ao se postar diante do


computador, você recebe uma avalanche de informações e imagens, como as lavas

de um vulcão se precipitam sobre uma aldeia. Sem clareza do que realmente

suscita o seu interesse, você não consegue transformar informação em

conhecimento e entretenimento em cultura. Você borboleteia por inúmeros

nichos, enquanto sua mente navega à deriva qual bote sem remos jogado ao sabor

das ondas.

Quanto tempo você perde percorrendo nichos de conversa fiada? Sim, é bom


trocar mensagens com os amigos. Mas, no mínimo, convém ter o que dizer e

perguntar. É excitante enveredar-se pelos corredores virtuais de pessoas

anônimas acostumadas ao jogo do esconde-esconde. Cuidado! Aquela garota que

o fascina com tanto palavreado picante talvez não passe de um velho pedófilo

que, acobertado pelo anonimato, se fantasia de beldade.

Desconfie de quem não tem o que fazer, exceto entrincheirar-se horas seguidas na


digitação compulsiva à caça de incautos que se deixam ludibriar por mensagens

eróticas.

Faça bom uso da internet. Use-a como ferramenta de pesquisa para aprofundar


seus estudos; visite os nichos que emitem cultura; conheça a biografia de pessoas

que você admira; saiba a história de seu time preferido; veja as incríveis imagens

do Universo captadas pelo telescópio Hubble; ouça sinfonias e música pop.

Mas fique alerta à saúde! O uso prolongado do computador pode causar-lhe, nas


mãos, lesão por esforço repetitivo (ler) e torná-lo sedentário, obeso, sobretudo se,

ao lado do teclado, você mantém uma garrafa de refrigerante e um pacote de

batatas fritas...

Cuide sua vista, aumente o corpo das letras, deixe seus olhos se distraírem


periodicamente em alguma paisagem que não seja a que o monitor exibe.

E preste atenção: não existe almoço grátis. Não se iluda com a ideia de que o


computador lhe custa apenas a taxa de consumo de energia elétrica, as

mensalidades do provedor e do acesso à internet. O que mantém em

funcionamento esta máquina na qual redijo este artigo é a publicidade. Repare

como há anúncios por todos os cantos! São eles que bancam o Google, as notícias,

a wikipédia etc. É a poluição consumista mordiscando o nosso inconsciente.

Não se deixe escravizar pelo computador. Não permita que ele roube seu tempo


de lazer, de ler um bom livro (de papel, e não virtual), de convivência com a

família e os amigos. Submeta-o à sua qualidade de vida. Saiba fazê-lo funcionar

apenas em determinadas horas do dia. Vença a compulsão que ele provoca em

muitas pessoas.

E não se deixe iludir. Jamais a máquina será mais inteligente que o ser humano.


Ela contém milhares de informações, mas nada sabe. Ela é capaz de vencê-lo no

xadrez – porque alguém semelhante a você e a mim a programou para jogar. Ela

exibe os melhores filmes e nos permite escutar as mais emocionantes músicas,

mas nunca se deliciará com o amplo cardápio que nos oferece.

Se você prefere a máquina às pessoas e a usa como refúgio de sua aversão à


sociabilidade, trate de procurar um médico. Porque sua autoestima está lá

embaixo e o computador não haverá de encará-lo como se fosse um verme. Ou sua

autoestima atingiu os píncaros e você acredita que não existem pessoas à sua

altura, melhor ficar sozinho.

Nas duas hipóteses você está sendo canibalizado pelo computador. E, aos poucos,


se transformará num ser meramente virtual. O que não é uma virtude. Antes, é a

comprovação de que já sofre de uma doença grave: a síndrome do onanismo

eletrônico.


Frei Betto é escritor, autor do livro de contos “Aquário Negro” (Agir), entre outras obras.

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